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Geral

27/01/2010 - Redação

Foto: Divulgação

Iniciada em dezembro do ano passado, a construção do Memorial à Guerrilha do Araguaia é a realização de um sonho do povo da região do Bico do Papagaio que no último ano acabou comprando um terreno para construção, visto que os terrenos anteriormente destinados tiveram problemas de ordem burocrática que acabaram por atrasar a realização da obra.

Coincidentemente o terreno definitivo fica entre os dois anteriores, uma considerável área de cerca 5.000m². A construção do Centro Cultural e Literário de Xambioá conta com recursos do Ministério da Cultura através de emendas de parlamentares de vários estados.

Osvaldo Reis (PMDB) e Vicentinho Alves (PR) do Tocantins, Jô Moraes (MG), Chico Lopes (CE), Daniel Almeida (BA) e Perpétua Almeida (AC), estes últimos do PCdoB, foram os responsáveis pelo direcionamento dos recursos. Também contribuíram para a captação de recursos o senador licenciado do Tocantins, Leomar Quintanilha (PMDB-TO) e o ex-deputado federal do Tocantins, Ronaldo Dimas, como engenheiro responsável pela obra e através da Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (Fieto).

Também vem contribuindo com a construção do memorial e com o Instituto de Apoio aos Povos do Araguaia (IAPA) ao longo dos últimos dez anos, a Associação Comercial de Xambioá, os hoteleiros, as Câmaras de Vereadores da região, prefeituras, estudantes e professores.

Na primeira fase da obra será construído o anfiteatro, definido como prioridade pela comunidade, e o obelisco projetado por Oscar Niemayer. Esta primeira fase corresponde a 1/5 do total da obra e teve recursos liberados da ordem de 540 mil reais.

No total a construção terá, além desta primeira fase, biblioteca, museu, salas, lanchonete e espaço para o IAPA. Na semana passada o presidente do IAPA, Zezinho do Araguaia, esteve com o Secretário de Educação do Tocantins, Leomar Quintanilha, para tratar de parcerias e da articulação para liberação de mais recursos para a conclusão do Memorial. Zezinho foi acompanhado pelo presidente estadual do PCdoB-TO, Nilton Barbosa.

IAPA

O Instituto de Apoio aos Povos do Araguaia foi fundado no início da década passada na cidade de Xambioá com a participação da comunidade de vários municípios da região. Seu presidente fundador, Zezinho do Araguaia, é ex-guerrilheiro que retornou a região também no início da década.

O IAPA foi o grande responsável pelo barramento da construção da Usina Hidrelétrica de Santa Isabel, que seria a primeira de uma série de 12 empreendimentos que fariam parte da Hidrovia do Araguaia, afetando 12 municípios da região. Alguns ficariam totalmente submersos. A usina também afetaria os oito ecossistemas presentes na região, mais de 100 sítios arqueológicos, pinturas rupestres, cavernas e cachoeiras, bem como as possibilidades de maiores descobertas com relação aos desaparecidos da guerrilha.

Além da atividades de cunho sócio-ambiental o IAPA realiza atividades de preservação e resgate da história, seminários, palestras e realizou com grande sucesso mostras de vídeos sobre a Guerrilha do Araguaia e as lutas populares da região e do Brasil. O IAPA foi agraciado com o título de entidade de interesse público concedido pela Câmara de vereadores de Xambioá.

Zezinho do Araguaia

Micheas Gomes de Almeida ficou conhecido como Zezinho na região. Filiado ao PCdoB desde 1962 quando era estudante em Goiás. Após o golpe militar Micheas esteve entre os filiados do PCdoB que fizeram intercâmbio marxista e de técnicas de guerrilha na China.

Retornado ao Brasil foi deslocado para a região norte de Goiás fazendo parte dos preparativos para a resistência armada à Ditadura Militar nas condições da luta no campo, em razão do guerrilha urbana estar praticamente aniquilada e moralmente abalada com o assassinato de Carlos Marighella, em 1968.

Único sobrevivente da Guerrilha que nunca foi preso, Zezinho foi um dos primeiros militantes a chegar à região e o último a sair, tendo ele e Ângelo Arroyo evadido do local em fins de 1974, após verificarem a inexistência de sobrevivente livres.

Último membro do Comando Militar da Guerrilha a sobreviver Arroyo foi assassinado junto com mais dois membros do Comitê Central do PCdoB em 16 de dezembro de 1976 na emboscada que ficou conhecida como Chacina da Lapa.

Zezinho, após deixar Arroyo em São Paulo, não conseguiu reatar ligação com o Partido, visto que seu contato, Pedro Pomar, também foi assassinado no mesmo ataque, que visava eliminar todo o restante do Comando Militar e mais especificamente João Amazonas, presidente do PCdoB.

Sem conseguir contato com o Partido, Zezinho passou vários anos como desaparecido político, usando outros nomes e militando em outros movimentos sociais nas periferias de São Paulo.

Após anos sem contato algum com o PCdoB, Zezinho reencontrou com os dirigentes do Partido em 1996 e em 1997 esteve entre os ilustres convidados que participaram do 9° Congresso do PCdoB, desde então, não abandonou mais as atividades de militância, participa de congressos estudantis e tem na construção do Memorial sua maior luta. Ele retornou ao Araguaia, fundou o IAPA e busca na preservação da história, uma das formas de respeito aos que tombaram na defesa da democracia e de respeito e ajuda ao povo da região que mesmo sem saber quais os motivos das perseguições aos "paulistas" nunca colaborou com a repressão, muitos inclusive perdendo a vida ou convivendo com sequelas das torturas até os dias de hoje.

Povo forte e honrado que, segundo o próprio João Amazonas, fez todos os combatentes aumentarem sua confiança num Brasil mais justo e fraterno.

Fonte: Portal Vermelho Tocantins